segunda-feira, 31 de março de 2014

# 3 - Soul Survivor, os Rolling Stones


Enquanto os Beatles desfrutavam da boa vontade de quase todo mundo, coube aos Rolling Stones pagar o preço por terem sido apresentados como uma antítese suja e pulguenta. Claro que os próprios contribuíram muito para que essa imagem fosse propagada, fato que não os ajudou em nada na hora de arcar com as consequências. Embora essa não seja uma história nova, ela na maioria das vezes é contada recheada de clichês. Saiba com mais detalhes como os Stones sobreviveram à má vontade, pancadarias, prisões e até a morte, e passaram de uma banda desprezada ao maior espetáculo da Terra.














por Carlos E. Werlang

O responsável pela impulsão da jovem carreira dos Rolling Stones foi o astuto produtor londrino Andrew Loog Oldham. Ele havia trabalhado diretamente com Brian Epstein e os Beatles no início de 1963, e também esteve envolvido na promoção da primeira excursão de Bob Dylan à Inglaterra no mesmo ano. Esse era o seu histórico quando, em meados de 63, foi até o clube Crawdaddy, em Richmond, e viu os Stones tocar pela primeira vez.

Naquela época, a banda ainda era liderada por Brian Jones e o pianista Ian Stewart. Mas isso não duraria por muito tempo. Sendo um pouco mais velho que os demais, Stewart logo foi sacado por Oldham. O próximo passo seria um contrato de gravação. A Decca Records já havia cometido o bizarro erro de rejeitar os Beatles no ano anterior, porque segundo o gerente da gravadora, Dick Rowe, bandas com guitarras estavam com os dias contados. Desta vez, não precisaram pensar duas vezes.
Ian Stewart e os Rolling Stones














Existe uma conhecida história de que George Harrison teria indicado os Rolling Stones para Rowe depois de os Beatles terem assistido uma apresentação e os conhecido em Richmond. Foi Andrew Oldham, entretanto, quem efetivamente assegurou aos Stones seu primeiro contrato de gravação. Entre os termos, estavam itens que os Beatles não tinham direito em seu contrato com a EMI, como valores mais altos para os royalties, total controle artístico e propriedade das gravações, e a não obrigatoriedade de usar os estúdios da Decca.

Convencido de que John Lennon e Paul McCartney haviam tornado o negócio de compor canções lucrativo, Oldham trancou Mick Jagger e Keith Richards numa cozinha, para sair apenas quando tivessem uma canção. Na biografia Vida, Keith Richards conta que Andrew Oldham pensava que se Mick Jagger era capaz de escrever cartões postais a uma namorada e ele era capaz de tocar guitarra, então eles conseguiriam escrever músicas. Mas não antes de gravarem uma versão de ‘I Wanna Be Your Man’, escrita por Lennon e McCartney, assegurando assim seu primeiro Top 20 na Inglaterra. O primeiro single escrito por eles a chegar ao topo das paradas saiu no início de 1965, ‘The Last Time’. Com isto, a liderança de Brian Jones foi pouco a pouco sendo trocada pela a da dupla Jagger e Richards.
Keith e Andrew Loog Oldham




















Ao se dar conta que eles não se conformariam num formato Beatle, Andrew Loog Oldham decidiu que os Stones deveriam comportar-se como a antítese dos Beatles – nada de artificial aqui, pois Oldham teve o insight apenas os observando. Se os Beatles eram os heróis, os Stones seriam os vilões; foi daí que surgiu a infame pergunta “Você deixaria sua filha casar com um Rolling Stone?” É importante notar que na época muita desta rivalidade era pura propaganda – havia até um acordo mútuo entre os dois grupos dizendo que eles só lançariam singles e discos em datas alternadas, nunca competindo entre si.

A partir daí, sempre que possível, os Rolling Stones seriam vistos cuspindo insultos, agindo de maneira inapropriada e, ao menos aos olhos do showbiz, fazendo tudo errado. Como os Beatles eram queridos por quase todo mundo, ficou fácil para os Stones chocar e desagradar. Um jornal até escreveu que eles eram tão sujos, que era possível contar as pulgas pulando de suas cabeças. Um episódio bem conhecido é a apresentação que Dean Martin fez dos Stones em sua primeira aparição na TV americana. Martin fez piada com o nome da banda, o comprimento de seus cabelos, e anunciou a estreia dos Stones em frente de uma plateia pouco entusiasmada.

O single seguinte resultou no primeiro sucesso internacional. Quando ‘(I Can’t Get No) Satisfaction’ foi lançado no meio de 1965, liderou as paradas do Reino Unido e dos Estados Unidos. O timing perfeito do protesto cínico contra a “informação inútil que deveria disparar minha imaginação” levaram os Stones à influência contemporânea da época. Com o resultado, eles realmente chegavam a outro nível. Nas palavras de Mick Jagger, o sucesso de ‘Satisfaction’ “os transformou de apenas outra banda pequena em uma banda enorme e monstruosa.”

Assim como os Beatles antes deles, os Stones haviam entrado no frenético circuito de apresentações. E depois de tanto tempo na estrada, as performances lideradas por Jagger, Richards e Jones, mais Bill Wyman e Charlie Watts começaram a ficar caóticas. E se de certa forma os Stones experimentavam sua própria mania, ela ultrapassava limites de bom comportamento. Sua música incitava tamanha violência nos jovens reprimidos que estes se juntavam e desafiavam a polícia. Quanto mais a leste seguiam, mais problemas enfrentavam. Em setembro de 1965, os Stones tocaram em Berlin, o último de cinco dias de apresentações. Depois de apenas 20 minutos o show foi interrompido. A plateia lutou contra a polícia pelo controle do teatro, destruindo os assentos e extintores de incêndio. Berlin ficaria vários anos sem receber shows de rock. Conta-se que foi essa a noite em que Brian Jones conheceu Anita Pallenberg.


















O primeiro álbum feito todo de canções escritas por Jagger e Richards foi Aftermath, seu quarto disco, lançado em abril de 66. O quinto, Between the Buttons, veio um ano mais tarde. Os Stones experimentavam grande aceitação com seus discos e singles. As originais Jagger-Richards, temperadas com o peculiar estilo de tocar de Brian, seus instrumentos e sons exóticos, garantiram seu lugar na história como o final da fase inicial dos Stones. De maneira simbólica, Buttons é o último disco produzido por Loog Oldham.

Quando Jagger e Richards foram presos em fevereiro de 67, as drogas certamente não eram novidade. George Harrison e John Lennon, por exemplo tomavam o temido lisérgico desde 65. O palhaço de metedrina Bob Dylan excursionou pela Europa em 66 e passou a maior parte do tempo sem dormir. Syd Barrett liderou o Pink Floyd por clubes psicodélicos como o UFO. Histórias não faltam. A novidade, no entanto, era a polícia tentando acabar com a imunidade do mundo pop. Começou com Donovan Leitch, quando ele foi preso em 66. E continuou quando bateram à porta de Keith Richards, em Redlands.

O tabloide News of the World e o sargento Norman Pilcher uniram forças para armar furos jornalísticos ao prender astros do rock. Até 69, Semolina Pilcher iria prender dois Beatles e suas esposas. Mas naquela época, segundo o que contam, os Beatles eram protegidos pelo título que haviam recebido da Rainha, eles eram Membros do Império Britânico. A polícia então teria esperado George e Pattie Boyd sair da festa na casa de Keith Richards para prender os dois Stones. Verdade ou não, o fato é que mesmo enfrentando vários tipos de situações bizarras, os Beatles ainda se valiam da boa vontade geral. Eles seriam criticados um pouco mais tarde na história. Coube aos Stones pagar o pato. Em maio, foi a vez de Brian. E ele seria preso de novo, quase um ano depois.
















As penas impostas aos dois Stones foram severas. Três meses para Jagger e um ano para Richards. Apelações conseguiram que elas fossem indeferidas meses mais tarde. Como uma das consequências, a banda teve problemas para entrar nos EUA. Em casa, as gravações para o próximo disco também foram afetadas. Andrew Loog Oldham já havia saído. Brian estava cada vez mais fragilizado e logo saberia que sua namorada Anita Pallenberg e Keith Richards estavam envolvidos.

Os Rolling Stones voltaram de sua experimentação psicodélica com o single ‘Jumpin’ Jack Flash’, de 68, o primeiro após a prisão. O interessante é que Keith Richards teve que ser preso para que pudesse assumir o papel que historicamente sempre foi dele. O fora da lei havia nascido. Mick Jagger também estava diferente e seu papel logo cruzaria o diabo, em ‘Symphaty for the Devil’, do disco Beggar’s Banquet. Os Stones tinham gás novo e precisavam seguir em frente. Infelizmente, Brian Jones continuou complicando-se. No filme Crossfire Hurricane, de 2012, Mick Jagger disse que naquela época, ele e Keith usavam algumas drogas, mas Brian usava demais, e dos tipos errados. Ele não conseguia mais funcionar como músico. Anos antes, Brian havia falado em uma entrevista, “vamos ser honestos, o futuro como um Rolling Stone é muito incerto.” E então em junho de 69, Brian Jones foi tirado da banda que ele havia ajudado a criar.
Brian, Anita e Keith, por Michael Cooper
















Menos de um mês depois os Stones se preparavam para um grande concerto no Hyde Park, em Londres. Seria um aquecimento para a excursão americana que viria a seguir com Mick Taylor, um guitarrista inglês de apenas 20 anos. Dois dias antes do concerto, Brian foi encontrado afogado em sua piscina, dando final a uma história que já havia sido anunciada. A banda teve que endurecer para conseguir dar conta das 500 mil pessoas que foram ao parque ver o show, que a essa altura, havia virado uma elegia a Brian Jones.

No fim do ano os Stones finalmente se apresentam diante do público americano. A última vez havia sido em 66. The Rolling Stones American Tour 1969 aconteceu num momento em que os Beatles já estavam em vias de se separar e por conta disso, num óbvio declínio. A situação dos Stones era oposta mais uma vez. It’s a gas, gas, gas!
















A excursão terminou na terrível confusão causada em Altamont, onde uma pessoa morreu e várias outras apanharam. Diz-se que aí aconteceu o enterro da geração de Woodstock e dos geniais anos 60. Para os Stones, seria apenas mais uma das várias cicatrizes.

Quando os Beatles se separaram, os Stones assumiram o fardo de ser a banda mais importante do mundo. Nos anos que se seguiram eles trocaram novamente de guitarrista, foram presos algumas outras vezes e ainda quase morreram pelos excessos que cometeram, mas seguiram em frente e hoje, 50 anos desde a formação da banda, os Rolling Stones são a maior banda em atividade.

No vídeo abaixo, uma performance de 'The Last Time', o primeiro número 1 escrito por Jagger e Richards, em um concerto na Irlanda, 1965.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

# 2 - John Wesley Harding


De volta aos EUA após uma exaustiva excursão regada à eletricidade e vaias pela Europa e Austrália, Bob Dylan sofreu um grave acidente de moto. Assim que os primeiros rumores foram ouvidos, as especulações espalharam-se rapidamente: ele teria ficado paralisado do pescoço para baixo, teria tido lesões cerebrais, teria morrido. Ou ainda, o acidente havia sido uma armação para livrá-lo do vício em heroína. Quase 18 meses mais tarde ele encerrou a agonia do público com o lançamento de seu novo álbum, John Wesley Harding. Totalmente diferente do colorido flamboyant do rock psicodélico (que de certa forma havia se originado do próprio Dylan), o disco foi um golpe na música superproduzida, ajudou gente como os Beatles e os Stones a voltarem às suas origens, e mais uma vez influenciou a direção do rock.




















por Carlos E. Werlang

Numa entrevista à revista Rolling Stone em 2012, Dylan afirmou que os primeiros anos da década de 60 ainda pertenciam aos anos 50. “Até talvez 64, 65 [...] os novos anos 60 começaram a vir e por volta daquela época tomaram o controle até o final da década.” Muito dessa transição aconteceu por meio do trabalho árduo dos dois principais atos daquele tempo – os Beatles e Bob Dylan – mais os Stones, que em termos cronológicos apareceram instantes depois. Prova disso são os lançamentos de Highway 61 Revisited (agosto de 65), Rubber Soul (dezembro de 65) e Aftermath (abril de 66).

O que veio em seguida, uma mistura das letras surreais de Dylan, como ‘Sad Eyed Lady of the Lowlands’ e ‘Visions of Johanna’; a complexa sonoridade quase eletrônica e experimental dos Beatles com pitadas discretas de referências ilícitas – ‘She Said She Said’ e ‘Got To Get You Into My Life’ – e ainda a confirmação da liberação sexual de ‘Let’s Spend the Night Together’, de Keith Richards e Mick Jagger, juntou-se ao budismo e vagabundagem beat da década anterior e levou ao nascimento do que veio a ser o rock psicodélico.

No início de 66, agora acompanhado dos Hawks, Dylan saiu em sua Bob Dylan World Tour para mostrar ao público o seu novo som elétrico. Judas, traidor, falso, vendido! Essas foram algumas das acusações recebidas em meio a vaias e ameaças. “Onde está o poeta em você? O que aconteceu com sua consciência?” berrou um espectador. Completamente focado e certo do que fazia, Dylan seguiu em frente sem ceder às demandas do público, embora não tenha saído ileso. Foi nessa excursão que ele desenvolveu o hábito de consumir enormes quantidades de drogas prescritas.

Dylan e os Hawks
































Exaustos ao final da excursão, Dylan e os Hawks (em breve apenas The Band) retiraram-se para Woodstock, uma comunidade de artistas localizada perto de New York. Vale lembrar que isso aconteceu três bons anos antes do famoso festival.

Numa manhã de julho, sem dormir por dias, Dylan levava sua moto Triumph para reparos. Sua esposa Sara o seguia de carro. Novamente à Rolling Stone, ele disse, “Por um segundo eu me ceguei devido ao Sol [...] e eu meio que entrei em pânico. Eu freei, a roda traseira travou e eu saí voando.” Depois do acidente, pouquíssimo foi ouvido ou visto sobre Bob Dylan, apenas as mais fantásticas especulações. O fato é que quando ele efetivamente retornou, já não era mais, na definição de Allen Ginsberg, o “palhaço de metedrina”. A encarnação do groovy poeta elétrico de fala rápida havia ficado para trás. Logo, o público conheceria Bob Dylan, o pai de família que criava galinhas e tocava música country.
Dylan e sua Triumph
















Em 67, o mundo explodia em cores. A guerra do Vietnã seguia firme, mas o alto astral hippie contagiava todos no que foi chamado de ‘O Verão do Amor’. Os Beatles lançaram Sgt Pepper e os Stones Their Satanic Majesties Request (longe de ser uma cópia, como dizem). Havia grupos novos na onda. Pink Floyd, Jimi Hendrix e Doors gravaram seus discos de estreia. Bandas e artistas já estabelecidos, como Who, Beach Boys e Donovan, também deixavam sua impressão no novo som psicodélico. Londres deixou de ser o foco da cena e agora São Francisco era a nova Meca da música. Bob Dylan, entretanto, continuava em silêncio. E mesmo assim, sua posição de porta voz continuava indisputável.

Ao contrário do que se dizia, Bob Dylan não havia desistido da música. No mesmo ano de 67 ele a Band encontraram-se frequentemente em Woodstock, gravando uma coleção de canções que logo dariam origem ao que se acredita ser o primeiro bootleg do rock – oficialmente, estas canções só veriam a luz do dia na metade dos anos 70, com o nome de Basement Tapes. As relaxadas sessões com a Band ajudaram Dylan a voltar a escrever, a fazer conscientemente o que ele costumava fazer inconscientemente.

O acidente deixou Dylan seriamente ferido. A versão mais acreditada é a de que ele fraturou várias vértebras no pescoço. Ele quase morreu, e isso o fez reavaliar o tipo de vida que estava levando. “Eu provavelmente teria morrido se tivesse mantido o ritmo.” A vida familiar com Sara e os filhos que não paravam de nascer também o fizeram mudar de comportamento. Antes cínico e falador, agora Dylan era quieto, mas cordial.
Bob e Sara por Elliot Landy, 1968.














Nos meses finais de 67, Dylan voltou sem grande alarde a Nashville onde havia gravado seu último disco, quase 18 meses antes. Ao contrário da maratona de horas de Blonde on Blonde, as sessões foram rápidas e precisas, e a banda, enxuta (uma indicação de que algo incomum estava prestes a acontecer). Somente baixo e bateria – e um ocasional pedal steel – acompanharam o seu violão. As canções escolhidas nunca apareceram na coleção das Basement Tapes, tornando o caso ainda mais curioso. A volta de Dylan dos mortos estava preparada.

Então afinal, no Natal de 1967, chegou às lojas John Wesley Harding, o novo disco de Bob Dylan! A pedidos do próprio artista, a CBS não promoveu o disco e grande parte do público foi pega de surpresa. A começar pela capa, uma foto preta e branca de Dylan junto de dois bengalis e um carpinteiro, numa moldura marrom acinzentada; era totalmente oposta à estética colorida da época.

Outtakes da foto da capa






























De maneira alguma John Wesley Harding era uma extensão do trabalho que Dylan havia feito em sua trilogia elétrica. De fato, o disco tinha mais a ver com seus primeiros discos de baladas folk do que com rock. Ele ousou mudar o caminho outra vez e ir contra sua própria tendência, novamente deixando para trás um rastro de inconformados. Novas acusações, velhas palavras: traidor, vendido, falso. Quem ele pensava que era ao não dar respostas e apontar o caminho a ser seguido? Dylan não sentia ligação nenhuma às questões sociais da época, nem às pessoas que o pintavam como o novo Messias. Ainda assim, o disco rapidamente tornou-se o mais vendido de sua carreira até aquele momento.

E ainda havia as palavras. John Wesley Harding estava recheado de alegorias e parábolas bíblicas (‘All Along The Watchtower’, ‘I Dreamed I Saw St. Augustine’ e ‘The Wicked Messenger’); baladas simpáticas à causa dos maltrapilhos (‘Drifter’s Escape’ e ‘I Am A Lonesome Hobo’), foras da lei (‘John Wesley Harding’), desfavorecidos (‘Dear Landlord’ e ‘The Ballad of Frankie Lee and Judas Priest’) e imigrantes (‘I Pity The Poor Imigrant’). Entretanto, não é um disco de fácil assimilação, e talvez essa seja a razão pela qual ele quase nunca é mencionado nas listas de discos favoritos dos fãs de Bob Dylan. 

A verdade é que depois deste álbum, o rock psicodélico perderia força e se transformaria na bobagem do rock progressivo. Porém, quem estava mais atento sabia a direção a seguir. Semanas depois do lançamento, os Beatles tiveram o seu retiro ao sopé dos Himalaias. É famosa a história de que entre os poucos discos que foram levados, estava uma cópia de Harding, levada por George Harrison. Em Londres, gente como Mick Jagger e Eric Clapton possuíam cópias piratas das Basement Tapes. Desta vez, Bob Dylan influenciou os Beatles e Rolling Stones a voltarem às suas raízes, além de influenciar Eric Clapton a sair do Cream. Em breve, a tendência (não no sentido pejorativo da palavra) seria o country rock. 

Mais uma vez, parecia que Bob Dylan dialogava com seu tempo e logo muitos se voltariam para um estilo de vida mais familiar, introspectivo e tolerante. Mas não antes de Jimi Hendrix gravar sua própria versão de ‘All Along The Watchtower’, a trilha sonora apocalipticamente perfeita para o caos do final da década, uma vez que o colorido hippie era sufocado por marchas e protestos contra a guerra. Mais de 45 anos depois, John Wesley Harding permanece como o único de seu tipo, o símbolo do fim da extravagância e o início do autoexame. 

Por fim, existe um mito de que os Beatles estariam secretamente escondidos de ponta cabeça na capa. Para os mais curiosos, existem mais detalhes no Google.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

# 1 - Les Beatles

No embalo das comemorações dos 50 anos da primeira visita dos Beatles aos Estados Unidos pouco é sabido ou lembrado que menos de um mês antes eles haviam passado uma temporada de três semanas em Paris. Os franceses foram os últimos a testemunhar o grupo antes do pandemônio que se sucedeu à conquista da América. Ao contrário do que havia acontecido em outros lugares da Europa, seu sucesso não foi instantâneo. Pela última vez, os Beatles puderam aproveitar relativo anonimato nas ruas da capital francesa, que ainda os viu compondo um novo single e descobrindo a música de um jovem bardo americano.

Posando para a revista LIFE (foto de Terence Spencer)




















por Carlos E. Werlang

Há exatos 50 anos, no dia 5 de fevereiro de 1964, os Beatles retornaram a Londres depois de terem ficado 22 dias na França. Dois dias mais tarde, eles voaram à New York pela primeira vez. O que aconteceu a seguir foi tão sem precedentes que a estada em Paris quase sempre é eclipsada. Mas como de costume, ela foi marcada por diversos fatos significantes.

É importante destacar a quantidade e a rapidez do trabalho da banda nos anos iniciais de seu contrato com a EMI. Entre o fim de dezembro e o início de janeiro de 64, os Beatles apresentaram-se em 16 noites no The Beatles Christmas Show, uma peça teatral de variedades concebida por Brian Epstein. Apenas três dias depois, em 14 de fevereiro, John Lennon, Paul McCartney e George Harrison, desembarcaram no aeroporto Le Bourget, acompanhados de Brian Epstein, Neil Aspinall e outras pessoas da imprensa inglesa. Ringo Starr juntou-se a eles somente no dia seguinte.

Os Beatles menos Ringo nas ruas de Paris

Eles ficaram hospedados no luxuoso hotel George V, na Champs-Elysées. Segundo George, essa foi a primeira vez em que ficaram num hotel tão grande, com enormes suítes e grandes banheiros de mármore. John e Paul já sofriam a pressão de compor canções para seu primeiro filme e ainda para outros artistas. Para isso um piano foi trazido até a suíte.


















Os Beatles e Epstein relaxando na suíte (foto de Harry Benson)

















O primeiro show aconteceu no Cinéma Cyrano; foi um aquecimento para a abertura da temporada. Todos os demais aconteceram no Olympia Theater, ao longo de 18 dias. Em geral os Beatles tocavam 2 shows por dia, embora em algumas ocasiões eles tenham tocado até 3 vezes. Entre os atos que também dividiam o palco estavam o americano Trini Lopez e a francesa Sylvie Vartan.

Acostumados ao sucesso instantâneo, os Beatles tiveram uma experiência diferente quando tocaram o primeiro show da noite. A plateia era composta de elegantes pessoas mais velhas dispostas a aproveitar o que Paris tinha de melhor para oferecer em termos de entretenimento. Um grande contraste com o show da matinê, quando a plateia era formada de jovens entusiasmados que esgotaram os ingressos. Ao menos nos primeiros dias, as expectativas de encontrarem garotas francesas do tipo de Brigitte Bardot foram frustradas.


Os Beatles e Sylvie Vartan



























Em geral, a apresentação da tarde era mais curta do que a da noite, e os números executados eram ‘From Me To You’, ‘Roll Over Beethoven’, ‘I Saw Her Standing There’, ‘She Loves You’, ‘This Boy’, ‘Boys’, ‘I Want To Hold Your Hand’, ‘Twist and Shout’ e ‘Long Tall Sally’. A essa altura, os Beatles já tinham conseguido fazer três dos seus singles chegarem ao topo das paradas britânicas, mas falhavam em repetir o mesmo nos EUA. A história mudou quando a Capitol entrou no jogo.

Selos de menor importância já haviam lançado singles dos Beatles na América, mas como não houve promoção em cima das canções, nenhuma delas conseguiu entrar nas paradas. Com todo o sucesso se espalhando pela Europa, os EUA não podiam mais ignorar a mania. Um dos primeiros a se impressionar foi o apresentador de TV, Ed Sullivan. Ele havia visto a beatlemania com os próprios olhos numa passagem por Londres e conseguiu apresentações para o grupo no início de fevereiro. Quando finalmente a Capitol decidiu lançar ‘I Want To Hold Your Hand’, não teve mais volta.

Ainda em um dos primeiros dias em Paris, Brian Epstein os recebeu de volta ao George V com um telegrama vindo da Capitol. Eles haviam conseguido o tão suado número 1 das paradas americanas! As próximas semanas tiveram os Beatles em estado de êxtase preparando-se para a grande conquista. Todos eles sabiam muito bem da importância do que estava por vir.

Eleanor Bron ou uma garçonete?




















Mas ainda havia Paris e eles continuavam com o jogo rápido. Através de um DJ francês, Paul conseguiu a cópia de um álbum cujo artista ele já havia ouvido o nome repetidamente. O disco em questão era nada menos que The Freewheelin’ Bob Dylan. Um dos pontos altos da viagem, e de acordo com John, “Nós o levamos de volta ao hotel e pelo resto da nossa estada de três semanas em Paris, não paramos de tocá-lo. Todos nós ficamos malucos por Dylan.”

The Freewheelin' Bob Dylan















Duas importantes adições ao grupo aconteceram nos dias seguintes. Derek Taylor havia começado a trabalhar com George em uma coluna para o Daily Express, e assim, juntou-se a eles. Enquanto John e Paul ficavam no hotel compondo, George e Derek saíam pelas ruas de Paris para, segundo George, “fazer coisas francesas,” como ir à Torre Eiffel e boates. Os anos a seguir viram Derek envolvido com os Beatles até sua morte, em 1997. Mas foi nesta viagem em que John abriu a guarda e iniciou uma amizade com Taylor.

A outra pessoa a juntar-se a equipe dos Beatles foi o produtor George Martin. A gravadora alemã deixou claro que a banda somente faria sucesso na Alemanha cantando em alemão. Por isso, Martin voou até Paris para gravar versões de ‘I Want To Hold Your Hand’ e ‘She Loves You’ em alemão. Pela primeira vez desde que havia contratado os Beatles, eles não cumpriram o compromisso. Depois de uma conversa com Neil Aspinall, um furioso Martin foi até o hotel, só para encontrar uma comédia Beatle e ter que cair na risada – eles achavam ridículo ter de cantar em alemão.

Com a ajuda de um tradutor dois dias mais tarde, em 29 de janeiro, eles gravaram as versões ‘Komm, Gib Mir Deine Hand’ e ‘Sie Liebe Dich’. O fato interessante desta história é que para ‘Sie Liebe Dich’, eles  tiveram que regravar a música, gerando diferenças da versão original em inglês.

Nas mesmas sessões, acontecidas na EMI francesa (a única do conjunto fora da Inglaterra, uma vez que ‘The Inner Light’, gravada em 68 na Índia só teve George presente), mais uma canção foi testada. Paul a havia escrito no piano do hotel e a chamou de ‘Can’t Buy Me Love’. Embora ela ainda tenha sido modificada no mês seguinte, em Londres, ela estabeleceu mais recordes quando também chegou ao topo das paradas, em abril. Com ela, os Beatles monopolizaram as primeiras cinco posições das paradas.

A temporada na França é mais conhecida pelo telegrama recebido por Epstein, mas além de significar um último respiro antes da loucura da beatlemania, foi a única vez – com as exceções de Liverpool e Hamburgo – que os Beatles tocaram tanto tempo na mesma casa, mais de 30 vezes.

Os dois vídeos a seguir são do dia 16 de janeiro. No canal 'TheBeatlesConcerts' do Youtube é possível encontrar os dois shows completos.